quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Aproximadamente 365 dias.

O Luto

Tanto um padre (sim, eu sou católica) quanto meu neuropsiquiatra disseram basicamente a mesma coisa, sendo as palavras de um: "O 'um ano de luto' não é uma mera convenção social, não foi algo simplesmente inventado. Nós precisamos dele, precisamos desse tempo para nos curarmos.".
Verdade ou não, quando ouvi isto pela primeira vez há um pouco mais de um ano, havia perdido a minha avó materna, e estava entorpecida demais pela dor para ponderar tal afirmação. Exatos três meses e três dias após, perdi meu avô materno.
E esta espiral de dor, surpresa e luto em que me encontrei não contava tão somente com o falecimento repentino dos pilares de minha família, mas uma soma de eventos somadas aqui em retrospecto: ver a saúde de minha avó definhando - primeiro aos poucos, depois de uma só vez -, de eu ter sido acompanhante de meu avô no hospital há alguns anos e, após a apreensão de que ele poderia partir a qualquer minuto, me causando uma semana de insônia e madrugadas encarando seu peito no quarto escuro para certificar-me de que ainda respirava, vê-lo recuperado e bem (pra vê-lo partir agora), mas, principalmente, da perda de uma outra pessoa da família que até então talvez tenha sido o fato mais marcante de minha vida.
Agora, em 2015, eu me via sem três pilares da minha criação, da minha fundação. E via o efeito em toda a família, nas pessoas que mais amo no mundo. Quem já amou verdadeiramente alguém sabe o que é querer arrancar o próprio coração do peito e dá-lo, dar tudo, pra não vê-lo sofrer. E quando são todas as pessoas que você ama que estão sofrendo ao mesmo tempo? E quando você está sofrendo tanto quanto elas?
Faz um pouco mais de um ano que os três se juntaram no Céu.
Embora nem tudo sejam dores e tenham ocorrido coisas maravilhosas em minha vida durante este período, foi uma grande mudança na dinâmica da família - que ainda ocorre - e, de certa forma, um símbolo do fim da minha infância.

A Dor

Algumas pessoas irão concordar, outras discordar totalmente, mas muitos médicos e especialistas dizem que ansiedade e depressão interferem com as doenças e dores crônicas, e vice-versa.
Este ano, 2016, faz 14 anos que eu tenho uma de minhas doenças crônicas, e posso dizer que em meu caso é verdade.
E, com tudo que disse acima, é claro que passei maus-bocados. Mas também tive alguns avanços. Entre alguns médicos experimentei remédios novos e, depois de algumas tentativas mal sucedidas - faz parte, acredito que todo doente crônico conheça isso -, encontramos um medicamento que tem me feito muito bem, até pude reduzir a quantidade e dosagem de outros!
Não que tudo seja arco-íris e unicórnios, especialmente por eu ter que conviver com algumas coisas para o resto de minha vida, entretanto foi um alívio no meio dessa tempestade.

A Fé, os Livros e o Blog

Em momento algum minha fé aumentou ou diminuiu com os acontecimentos deste último ano, ao contrário do que algumas pessoas pensam.
Eu não tenho lido menos, embora assim possa parecer.
E o blog e minhas ideias para ele não saíram de minha cabeça durante este ano, todavia acredito que tenha demonstrado o oposto.
A forma como tais assuntos têm sido expostos nas mídias sociais por esta pessoa que vos fala mudou.

Tanto por estar vivenciando o processo de luto quanto estar amadurecendo e, consequentemente, mudando.

Assim como todos os grandes acontecimentos na vida de qualquer ser humano, as coisas que ocorreram comigo me mudaram. Hoje sou mais sensível porém mais calma. O que eu penso de mim e do mundo importa mais do que o que qualquer pessoa pensa. Não sou tão obcecada por planejamento e controle, embora continue mais do que a maioria das pessoas. E estou aprendendo a duras penas que eu tenho limites. Que às vezes eu preciso escolher entre uma coisa e outra ao invés de fazer ambas, que às vezes preciso de repouso. Que eu serei uma doente crônica pelo resto de minha vida, e tudo bem.
E, quando vi que em muitas ocasiões preciso escolher entre minha saúde e fazer outra coisa, a resposta de repente ficou óbvia.

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