quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Quebrando preconceitos: então eu li Bruna Surfistinha

Há alguns anos atrás, pediram minha opinião – se eu achava que fosse permitido que sua filha menor de idade lesse O Doce Veneno do Escorpião. Preferi lê-lo antes de dar uma resposta. Semana passada, em um desses dias em que passei na cama, li O que Aprendi com Bruna Surfistinha.

Créditos das imagens e mais informações: Panda Books

Resolvi colocá-los na categoria "quebrando preconceitos", pois provavelmente eu nunca teria a curiosidade de lê-los se não tivessem perguntado minha opinião.

E, só para relembrar, criei esta categoria para exercitar o eterno aprendizado de não julgar o livro antes de ler (ou de julgar qualquer coisa sem conhecer).

Não julgo prostitutas, de maneira alguma. Não julgo literatura erótica muito menos. E, definitivamente, não julgo o appeal e a curiosidade envolvendo a personagem Bruna Surfistinha.

Entretanto, estas obras deixam-me confusa. Não pela proposta, por quem realmente escreveu o quê, quando e como, ou se há mais ficção que fatos - ou somente ficção, ou somente fatos -, e não irei entrar nestes méritos. Acredito que na época do lançamento da primeira obra houve várias discussões sobre estes assuntos realizadas por pessoas muito mais qualificadas do que eu (e, se eu encontrar algum artigo interessante, prometo que coloco o link no "os 5 cincos" - aliás, me indiquem se souberem de algum!).

O que me deixou pensativa foi o fato de não ter simplesmente uma linguagem fácil de leitura simples - é mais do que isto. Também não é uma linguagem "de blog", o que justificaria o estilo e simplicidade. É estranha.

E as contradições são inúmeras. Seja lendo como ficção, como uma autobiografia (ou biografia autorizada), ou somente pela curiosidade sexual, não dá para deixar de notar várias contradições.

As histórias picantes prometidas, sinceramente, não são nem bem escritas nem picantes. Qualquer fanfic ou conto erótico amador entrega mais. E é tudo tão... genérico.

Lembrou-me um pouco o tipo de anedota que pode ser contada tanto como ficção como realidade, assim como "o primo de um amigo meu uma vez...". Não sei se esta é a proposta, talvez seja.

Não quero ser muito dura. Mas eu não consigo pensar em um público para recomendá-los.

Não recomendaria para quem quer algo erótico - leia Anne Rice, Josy Stoque e, prometo que até o final do ano farei uma lista pois, graças à parceria com a Josy estou tentando conhecer mais deste universo para ter alguma propriedade ao discursar sobre. 

Também tenho amigas que escrevem fanfics e, se permitirem, farei um top com minhas favoritas.

Não recomendaria para quem procura saber mais sobre a história de vida de uma garota de programa - por favor alguém me diga que há livros e relatos mais realistas de garotas de programa por aí.

Não recomendaria para quem busca uma autobiografia - além de este ser um assunto conturbado sobre os livros, não há nada de tão interessante que valha a pena. Desculpe-me. Não questiono a vida da pessoa ser interessante ou não, e sim a obra.

Não recomendaria, por fim, para quem tem curiosidade em saber mais sobre a Bruna Surfistinha. Provavelmente já foram partilhadas mais informações na mídia em geral (entrevistas para televisão, revistas, sites, etc.) do que você encontrará nas duas obras.

Sobre as dicas ou lições de vidas que poderiam conter no segundo livro eu, honestamente, não encontrei nenhuma. As que se dizem lições seriam aprendidas de qualquer forma, por qualquer um, independente do emprego. Se você vive em sociedade e está saindo da adolescência e entrando para a vida adulta acredite, irá aprender.

Algumas são confusas - são ditas aprendidas e, logo após, a pessoa que relata aparentemente as "desaprendeu", pois faz exatamente o que disse que nunca faria (contradições novamente).

O relato do companheiro da ex-garota de programa é igualmente contraditório e uma repetição do relato dela. É como ler a mesma coisa duas vezes.

E, novamente, independente de quem escreveu, não é bem escrito e não prende a atenção. Há coisas muito mais interessantes por aí, acreditem.

Se eu partir do princípio de que toda experiência de leitura é válida... ok. Talvez, pelo menos, eu possa dizer que eu venci uma barreira e, ao invés de torcer o nariz e dizer que nunca leria, eu dei uma chance. E este sempre foi o meu objetivo.

E quero ser sempre sincera aqui, acima de tudo.

:)

2 comentários:

Anna Rios Ferreira disse...

Patrícia, eu li - por curiosidade mesmo - há uns anos o primeiro. Eis o grande objetivo que percebi no livro: Ganhar dinheiro. O Blog da Bruna deu a ela notoriedade e a valorizou. Fez com que ela não fosse 'mais uma gp' e acho que apimentou bastante o interesse masculino nela. E, pra mim, o que pecou a Bruna no livro, foi em não assumir a sua real intenção. Como ela não assumiu isso com clareza, ela floreou e escorregou entre um livro erótico (que perdeu boa parte do erotismo pelo fato de que, pra ela, tudo aquilo era bem comum e foi essa visão desagarrada de sensualidade e 'clima' que apareceu no livro), um livro autobiográfico (que se resumia basicamente às experiências como GP, sem focar na história da pessoa de forma efetiva e uma - ausente - moral. Ela apareceu em alguns programas e, quando se perguntou se a idéia do livro era mostrar pras meninas que a vida de GP não era glamourosa, que não era um caminho a se seguir, ela concordou titubeante. Eu assisti a alguns e ela pegou esse papel de GP arrependida vestindo com a mesma 'empolgação' com que fazia os programas.
Não pelo julgamento à pessoa. Mas se, como a Lola Benvenutti, por exemplo, ela erguesse a cabeça e seu discurso fosse: sou prostituta, sim, sou gente como qualquer outra, não preciso me envergonhar e fizesse desse livro uma desmistificação e quebra de tabus, ele teria sido muito mais consistente, muito mais palatável. Como não o fez, fica essa nossa impressão de 'sanduíche de pão com pão': Não tem nada dentro. :( Já o segundo, eu nem li.

Josy Stoque disse...

Patty, obrigada pela lembrança! Adorei ser comparada com maior qualidade erótica do que a obra de Bruna Surfistinha, uma mulher que tem muito mais experiência do que eu. Com certeza a editora censurou todo o relato, deixando-o mega chato e usou o nome e o assunto para ganhar dinheiro. Minha irmã se mostrou curiosa em ler, mostrarei seu texto a ela. Tenho uma indicação bem hot e BDSM para indicar: Eu, Dommenique. É o relato real, bem escrito e cheio de detalhes bem sórdidos (e estranhos pelo fato de ter bondage, sadoquismo e dominação reais, não como 50 Tons de Cinza - acredito que este último deva fazer a vergonha de quem realmente é sádico por opção!). Eu, como uma boa curiosa, li e fiquei mega de boca aberta. Não me exista porque é um tipo de sexo que não me interessa, mas venci o preconceito e a curiosidade sobre o tema para enfrentar este relato real de uma dominatrix e não me arrependo da experiência. Com certeza seu texto não me instiga a ler o da Bruna, nem para formar minha própria opinião a respeito. Beijos