quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O fim da saga

Aviso aos desesperados (como eu!): este post NÃO contém spoilers.

Quando eu comprei o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal, em abril de 2000 (mês em que foi lançado no Brasil pela primeira vez), ninguém que eu conhecia tinha ouvido falar.

Encontrei em uma grande rede de livrarias, e me lembrei que recebeu excelentes críticas na Europa. Eu tinha quinze anos e, com meu apetite literário nerd, voraz - e adolescente! - da época, li em pouquíssimas horas.

No mesmo ano, Harry Potter e a Câmara Secreta e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban foram lançados no Brasil. Repeti nas duas vezes o que virou minha rotina até (quase?) o fim - comprava no dia, sentava, e só fechava o livro quando terminava de ler, algumas horas depois.

Desde o primeiro, o que mais me encantou foi a escrita de JK Rowling. Acredito que os fãs concordarão comigo. E, além de excepcionalmente bem escrito desde A Pedra Filosofal, os textos e diálogos evoluíam com o tempo, acompanhando não somente o crescimento da própria autora, como também dos personagens.

Harry Potter e o Cálice de Fogo chegou em português em 2001, e este seria o ano em que o primeiro filme - que me decepcionou - seria lançado.

Explico: a decepção com o filme foi pessoal. Eu não comparo com as obras, eu entendo os motivos de algumas adaptações - tornando-o, a meu ver, mais infantil do que precisaria (ou deveria), e todo o resto. Mas Chris Columbus, que me encantava com Gremlins e The Goonies, não me surpreendeu muito.

Anyway, de qualquer forma chorei com os dois primeiros filmes, com a mesma paixão que esperei pelo Harry Potter e a Ordem da Fênix.

Com minha rotina potteriana de ler os livros em um dia, adquiri uma nova - assistir às estréias (ou foram pré-estréias?) com minha prima Jú.

O quinto livro da saga foi meu favorito até então. Com quinze anos, Potter era extremamente chato como qualquer garoto de sua idade, o que achei fantástico. Chato ao menos para mim, já universitária então.

Os filmes continuaram, agora com O Prisioneiro de Azkaban se tornando o meu favorito (até hoje!). Eu me apaixonei completamente pela direção de Alfonso Cuarón, contrariando a maioria de minhas amigas, e de fãs que conheço.

Em 2005, quando Harry Potter e O Enigma do Príncipe foi lançado em português, minha vida estava completamente diferente. Já tinha morado sozinha, já tinha abandonado uma faculdade e entrado em outra. Estava extremamente feliz com algumas escolhas, e extremamente infeliz com outras. Ou seja, estava com vinte anos.

Repeti minha rotina, mas esta leitura foi diferente das demais. Tinha outro significado. Estava resgatando a mesma leitura inocente que tive aos quinze, voltando a um lugar seguro e conhecido, que tanto já havia me acolhido.

Talvez pelo elemento nostálgico, a leitura do sexto não me foi tão impactante quanto a de meus demais amigos-fãs (quem leu sabe do que estou falando).

Somente um tempo depois, com tantos boatos e euforias acerca do último volume da saga, eu gelei. Os filmes estavam sendo lançados, as notícias surgindo, e eu sabia que era o fim.

Não estava preocupada com quem iria vencer, quem iria morrer, ou quem iria se apaixonar por quem.

Minha preocupação era em relação à minha rotina, ao meu tesouro. Harry Potter é uma série de livros fantásticos e bem escritos que, seja por algumas horas ou meses a fio, nos transportam para outro lugar. Devolve-nos inocência, paixão.

Entendam, minha rapidez em lê-los não faz com que eu preste mais ou menos atenção. Devorá-lo é uma tentativa de conhecer melhor aquelas palavras, aquele cenário, aqueles diálogos, aquela construção tão bem desenhada por Rowling. Não é uma pressa em saber o que acontece, não era minha intenção, nunca foi.

De vez em quando eu abria um ou outro volume, e sorria ao me deparar com um diálogo bem escrito, uma inocência perdida, uma esperança que continuava.

Fiz questão de reservar o último livro para a data de seu lançamento em inglês - 21 de julho de 2007. Esse friozinho na espinha que surgia toda vez que pensava nele continuava, mas resolvi que seria um ótimo primeiro Potter que leria em inglês, sendo o último.

O livro começou a ser vendido à meia-noite em todo o mundo. Estava em um shopping na noite do dia 20 para o 21, e gelava quando passava pelas caixas lacradas na frente das crianças que grudavam os seus narizes na vitrine da livraria. Quando as caixas foram finalmente abertas, muitos viravam o livro para o final, tentando traduzir o que acontecia. Fui embora.

Exatamente às 6h da manhã, o livro chegou em casa. Mandei mensagens para amigas, e comecei a lê-lo, pela primeira vez, acompanhando as verdadeiras PALAVRAS de JK Rowling. Adoro a tradução, sei o trabalho e a responsabilidade de fazê-la, ainda mais agora, com queridas amigas estudando isso. Mas entendam, foi um contato mais íntimo com Rowling, por assim dizer.

Uma amiga ansiosa e curiosa, fez com que eu ligasse a cada capítulo que lia, pra contar os detalhes. E, a cada página que lia, uma sensação de vazio tomava conta de mim.

Eu estava apaixonada pelo livro, apaixonada por cada palavra, mas algo dentro de mim parou.

Então foi, por cerca da página 323, que o fechei, quebrando pela primeira vez em quase oito anos, minha rotina potteriana.

Harry Potter se tornou um trauma em minha vida. Não o abri, e me vi fugindo de todas as notícias e sites sobre a obra.

Dia 10 de novembro, meu livro em português chegou. Guardei-o, ainda dentro de uma embalagem plástica, com os outros.

De vez em quando, olhava para o livro em inglês, vendo a ponta de um marcador convidativo, apontando um pouco mais da metade da obra. Isso me passava uma segurança. Eu não sabia o que acontecia, não tinha idéia. E eu sabia que, a qualquer momento que quisesse, poderia retornar àquele lugar, e sentir aquela paixão novamente. Não era o fim pra mim. Ainda não.

Ia me formar, com planos para uma terceira faculdade, e logo aconteceu pela primeira vez a coisa mais incrível da minha vida - eu me apaixonei.

Estes últimos anos foram felizes e cheios de planos, e me foquei ao máximo para conquistar meus sonhos. O livro continuava lá, convidativo.

Em 2009 regressei à Flórida, e pude ver as construções do parque da Universal. The Wizarding World of Harry Potter parecia fantástico e extremamente familiar. Apesar de não ter muito para ver, aqueles tijolos, telhas e até plantas pareciam ser de um lugar há muito conhecido - e não me refiro aos filmes.








2010 chegou, ainda sem oportunidade de ir ao parque, agora inaugurado. Porém, ainda havia o consolo do livro fechado, com o marcador exatamente no mesmo lugar.

O primeiro filme de Harry Potter e as Relíquias da Morte seria lançado, muitos amigos já haviam relido todos os livros até mesmo mais que uma vez, e a vida continuava. Ainda sem saber o que estava naquelas páginas. Com muito esforço - ou nem tanto assim -, mantinha-me afastada.

Entretanto, há exatamente uma semana, fui assistir ao filme. Confesso que não estava preparada emocionalmente, e fiquei com dúvidas até o fim. Assisti, chorei, e me emocionei, mas continuo sem concordar com quem diz que é o melhor filme da saga.

Nos próximos dias, minha saúde, já debilitada, piorou. Entre dores excruciantes, hospital e remédios fortíssimos, não pensei no filme ou no livro abandonado nenhuma vez.

Foi na noite de terça-feira, medicada e com insônia, que reparei em um livro laranja, empilhado entre tantos outros na estante. Estiquei o braço e o apanhei. Ajeitando-me, ainda na cama, abri, pela primeira vez, a capa de Harry Potter e as Relíquias da Morte, o livro em português.

Resolvi ler as primeiras linhas, traduzidas das que havia lido poucos anos antes. Durante a noite, li as 590 páginas do sétimo livro, quase sem me mexer. Levei três anos, quatro meses e aproximadamente nove dias para ter coragem, e ainda sem saber o que me aguardava.
Eu precisava desse tempo, e precisava sentir que era o momento certo. E eu precisava de Harry Potter naquela noite.

Ri e chorei a noite inteira. Não senti o vazio dentro do peito que esperava ao final, senti meu coração se aquecer. A sensação foi de missão cumprida, de paz. Foi a sensação que deveríamos ter em qualquer final. E dormi bem, e sem dor.

Bem, ao menos por duas horas.
Mas continuei feliz pelo final.

É claro que às vezes quis matar a Rowling, quis bater no Harry, senti raiva dos personagens, de seus destinos. Raiva da tradução, querendo me levantar e pegar o original. Medo de me decepcionar quando me aproximava do final. Mas parte da diversão que um livro nos traz é exatamente isso.
Não foi um final perfeito mas, para mim, foi o final certo.

Dez anos depois que apanhei o primeiro livro de uma prateleira escondida da livraria, pude concluir minha leitura. Talvez eu precisasse desses dez anos, do mesmo jeito que sei que precisarei relê-los, talvez muitas e muitas vezes.

E ler outros autores, outros livros, outras sagas, que me acompanharão pelo resto da minha vida.

:)

2 comentários:

Garota no hall disse...

Nossa! Amei seu relato, é muito pessoal e detalhado.
A Total Film de novembro veio com uma matéria de capa do filme mais recente e tem uma entrevista com uma psicóloga sobre os efeitos que o fim da saga de Harry Potter podem provocar nos "órfãos". Mas apesar de ter lido todos os livros (bem, quase, já que não consegui terminar "O cálice de fogo" por ser o mais enrolador) e visto os filmes, não sinto um vazio tão grande. Foi bom enquanto durou, se esticasse mais não seria tão marcante.

Nanda disse...

Eu estava ao seu lado e vi vc chorar o filme todo ^^.
Me sinto meio culpada de ter arrastado você lá T_T.
Mas eu te entendo perfeitamente bem a unica diferença entre mim e você é que eu não consegui parar de ler o ultimo livro depois que começei >.<
Mas chorei e tive as mesmas emoções que você, por isso te compreendo tão bem ^^
Quando tudo acaba vem aquele vazio >.<
mas quem sabe nossa querida autora não nos surpreende com outros livros não é ^^